sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O futebol português está condenado a desaparecer ?

Historicamente somos um país onde os adeptos de futebol se distribuem na esmagadora maioria (na qual eu me incluo) por 3 clubes e invariavelmente assistimos a jogos do principal campeonato em que o número de espectadores não atinge sequer a marca do milhar.
É fácil sermos tentados a comparar as nossas assistências com as dos principais campeonatos europeus: Espanha, Alemanha, Inglaterra, Itália e França. Uma vez que qualquer um desses países apresenta um número de habitantes imensamente superior ao nosso, centrarei este meu post numa comparação com dois países com uma dimensão inferior à nossa e onde o futebol num caso é desporto-rei (Holanda) e noutro caso (Aústria) tem uma tradição e importância cultural inferior à existente por cá.
O futebol holandês, embora tenha vindo a perder peso e competitividade a nível europeu, é um dos campeonatos mais populares e conhecidos no Velho Continente e historicamente tem, à semelhança do que sucede no nosso, 3 clubes de dimensão maior que os restantes: Ajax, PSV e Feyenoord. A consulta das estatísticas oficiais desta época permite verificar que o clube (Excelsior) com menos adeptos no estádio apresenta uma média de 3300 espectadores (para uma capacidade máxima de 3531) e que a média nacional por jornada ronda os 19000 adeptos. Consultado o site oficial da Liga Portuguesa, facilmente identificamos 6 equipas com pior média de espectadores que o Excelsior e se contabilizarmos a média total, temos em média menos 8000 adeptos por jornada., ou seja, menos 240 000 adeptos no fim da época. Tendo em conta o campeonato holandês é disputado por 18 equipas (contra as 16 que competem na nossa liga), que existem 3 clubes mais populares em cada país e que o número de lugares sentados é maior no nosso país, é sem dúvida confrangedor assistir a tamanha disparidade de números.
Dando uma espreitadela agora ao campeonato austríaco, competição disputada por apenas 10 equipas, temos números igualmente desfavoráveis para a nossa causa. A equipa com menos adeptos (SV Mattersburg) consegue atrair em média 4075 espectadores (para um estádio com capacidade para 15100); 8 equipas da nossa liga apresentam uma média inferior à do Mattersburg. Vendo os números sobre o prisma da ocupação dos lugares, temos em média 39.6% de lugares ocupados por jornada em Portugal, 88.4% na Holanda e 58% na Aústria.
Sendo reconhecidamente a Aústria um país pobre em ícones futebolísticos e sendo o futebol holandês ainda menos competitivo que o nosso, é motivo para perguntar o que está na génese do afastamento dos portugueses dos estádios?
Já muitas vezes foi colocada essa pergunta e invariavelmente ouvimos respostas que vão desde o preço dos bilhetes até ao descrédito em que o futebol nacional vai caindo dado o profícuo número de trapalhadas que o vão envolvendo. Escusando-me a comentar este último, focarei as minhas atenções no preço dos bilhetes para discordar das análises que fazem. Tomo para exemplo jogos das próximas jornadas dos campeonatos acima situados e que envolvem equipas de dimensão regional. Por exemplo em Portugal, o jogo Portimonense-Leiria tem preços oscilam entre os 5€ (sócios e cartão jovem) e os 10€ (não-sócios). Já na Holanda, para o jogo Excelsior-NAC Breda de 4 de Dezembro, temos preços entre os 6€ e os 18€. Na Aústria para o Mattersburg contra o Sturm Graz, é possível adquirir o rectângulo mágico pagando entre 4€ (lugar em pé) a 22€. Embora os salários na Aústria e na Holanda sejam superiores aos nossos, o preço para ver um jogo entre equipas medianas acaba por ser em média ligeiramente mais caro nesses mesmos países.
Por isso apontarei outro motivo, que julgo ser mais verdadeiro para a falta de interesse que o nosso campeonato aparenta despertar nos adeptos. Ao contrário da imagem que se tentou fazer passar aquando do Euro 2004, em Portugal não se gosta de futebol. Gosta-se dos chamados 3 grandes e o resto costuma ser paisagem, tamanha é a falta de atenção que é dada aos restantes clubes pela comunicação social e pelas gentes da sua terra. E neste ponto reside, na minha óptica, o principal e real problema do futebol português.
Como explicar que existam em cidades como Coimbra, Leiria, Portimão, Funchal ou Aveiro mais adeptos do FCP, do SLB ou do SCP que adeptos do clube da terra? Para mim, que vejo o futebol como uma afirmação do local onde nasci e onde resido, que sinto o meu clube como representante da minha região, é inimaginável apoiar outro clube que não aquele que tem o estádio a meia dúzia de quilómetros da minha casa. Sou adepto do FCP e sei bem o que custa quando o meu clube não ganha um título. Por isso aceito que um clube vencedor vá granjeando a preferência dos jovens, espalhando a sua base de adeptos pelo país. O que me custa mais a aceitar é que por exemplo, exista uma proliferação de adeptos benfiquistas ou portistas em Coimbra sobre adeptos da Briosa.
A génese para esta preferência quase cega dos portugueses para apoiar apenas um dos três maiores clubes é do meu ponto de vista cultural e atrevo-me a dizer que se pode relacionar bastante com a nossa incapacidade crónica para ultrapassarmos as dificuldades. O pós-descobrimentos trouxe ao país uma onda de desgraça que perigosamente vai tomando a forma de tsunami e arrastando tudo à sua volta e que infelizmente agora se encontra materializada sobre a forma do desemprego que assustadoramente afecta boa parte da população portuguesa. Vendo por este lado, até pode-se compreender que as pessoas sejam adeptas de um clube ganhador pois as possibilidades de festejar e esquecer as agruras da vida são maiores. Mas dificilmente os clubes mais pequenos poderão resistir muito mais tempo sem o apoio inequívoco e unidireccional das forças vivas da região onde se inserem.
Sou portuense e portista. Se não tivesse ido pela mão do meu pai e calcorreado a pé inúmeras vezes o trajecto até ao saudoso Estádio das Antas talvez agora fosse boavisteiro. Ou quiçá salgueirista. Mas nunca adepto de um clube lisboeta.
Saudações desportistas.

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